Os Incríveis 2 e o debate entre legalidade versus moralidade

Os Incríveis 2 estreou nos cinemas depois de uma longa espera de 14 anos. Quando chegou em 2004, o primeiro filme da franquia da Pixar buscava, para além de uma divertida aventura de heróis, um debate sobre esses seres super poderosos e seu papel real dentro daquele universo. Eles seriam bons? Seriam ruins? Qual a importância de se ter uma identidade secreta? E, por fim: ser vigilante é infringir a lei?

Mesmo com essas diversas discussões já tendo sido realidades em outros quadrinhos e até as mais diversas mídias – é importante lembrar que uma das principais fontes de inspiração é a HQ adulta Watchmen -, observar falas como essas em uma obra da Disney era algo realmente formidável.

Após esse período e com a volta da animação, era de se esperar que os debates se atualizassem ou, ao menos, permanecessem os mesmos. Com isso, o longa chegou trazendo inesperadas questões, que se mostram inclusive relevantes para a atualidade, dentre elas a disputa entre legalidade e a moralidade. Ok, sei que esse tema parece realmente meio chato, complicado e até difícil de ser entendido, mas é curioso como a película injeta isso para dentro da sua trama.

Vamos começar do começo: na história, a família Pêra precisa voltar a trabalhar para conseguir se autossustentarem, já que não podem ser heróis novamente. Sendo assim, Helena (a Mulher-Elástico) é chamada para trabalhar em uma empresa de telecomunicações que busca fazer todos os super-heróis se tornarem legais novamente. A partir desse momento, é estabelecida a problemática em torno de fazer algo fora da lei para alcançar um objetivo que seria dentro da lei.

A complexidade dentro de assunto se mostra formidável, mesmo que feita em pouco tema na linha narrativa. Em uma das falas, a matriarca da casa diz “Como que eu posso ser a lei me tornando uma fora da lei?”. Indo por esse caminho, pode-se pensar, primeiramente, no trabalho do vigilante/herói. Assim como no quadrinho Watchmen (citado acima), na qual possui como a maior questão “Quem vigia os vigilantes?”, essa temática está devidamente presente em nossa vida contemporânea. Os linchamentos virtuais que ultrapassam no mundo real para a ideia de uma pessoa comum que quer realizar justiça com as próprias mãos. Isso serial algo bom ou ruim? Ainda mais afundo, aonde entra a moral do individuo nisso? Porém, retirando qualquer valor, sabe-se que uma situação assim é considerada ilegal, já que existem instrumentos estatais para realizarem atos punitivos.

Já que foi falado sobre o nosso mundo existente, passemos para o universo do filme, aonde existem pessoas com poderes, que poderiam usar sua capacidade para fazer ações punitivas perante qualquer um. Com isso, faria ainda mais sentido uma instrumentalização legal do Estado (esse com ‘e’ maiúsculo) em criar realmente uma lei para impedir esses de agirem? Ou talvez ainda, poderia existir uma aliança com uma polícia local para que o combate seja melhor realizado? Parece que a discussão está indo longe demais, não é mesmo? Entretanto, se trata de um lugar que poderia existir, assim como o nosso mesmo existe. Dessa forma, é importante que uma conversa disso seja retratada em uma obra que é – aparentemente – infantil.

Relacionando com o assunto principal do texto, a lei existe existe em seu trâmite, mesmo podendo não ser considerada moralmente aceitável. Usemos um exemplo cabível: o do Apartheid. Esse, que foi criado pelo governo da África do Sul em 1948 e só acabou em 94, foi um regime de separação racial em todo o país. Sim, um sistema de legislação que separava negros e brancos e era realizado pelo próprio Estado. Isso poderia ser considerado realmente bom? Faça-se você mesmo a pergunta.

É nesse momento que o questionamento da Mulher-Elástico faz sentido, já que, se a lei é desigual para ela, por que segui-la? É um caso bem claro de desobediência civil, de ir contra algo vigente buscando o ‘melhor’. Todavia, para a personagem, isso leva a uma via de mão-dupla aonde ela poderia perder, ou seja, poderia ser presa e não conseguir sustentar sua família. Os pesos da medida se tornam importantes para definir o posicionamento político da pessoa.

Como o objetivo desse texto era gerar mais questionamentos do que realmente angariar respostas, acredito que o longa segue esse mesmo caminho. Mesmo algumas pessoas do público não gostando tanto disso, é imprescindível que qualquer obra audiovisual, na qual atinga uma grande quantidade de público, busque falar sobre a atualidade e levar debates para fora da sala de cinema. Afinal das contas, um filme não é só um filme, mas é também um produto do seu tempo, algo que ficará marcado para história. E se, no futuro, quisermos entender um pouco sobre o ano de 2018, Os Incríveis 2 talvez seja a melhor resposta.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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