Resenha – A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

Quando peguei A Vida Invisível de Eurídice Gusmão para ler não sabia do que se tratava. Fui influenciada por uma promoção do ebook na Amazon, por suas poucas páginas (176 para ser mais exata) e pelo burburinho de sua adaptação. Obviamente, me surpreendi com o que me deparei. O romance de estreia da jornalista e editora Martha Batalha, fala sobre machismo, mas não de uma forma que estamos acostumados, porque histórias como as de Eurídice e Guida não são contadas. Por isso, da invisibilidade.

Sinopse: “Rio de Janeiro, anos 1940. Guida Gusmão desaparece da casa dos pais sem deixar notícias, enquanto sua irmã, Eurídice, se torna uma dona de casa exemplar. Mas nenhuma das duas parece feliz em suas escolhas. A trajetória das irmãs Gusmão em muito se assemelha com a de inúmeras mulheres nascidas no Rio de Janeiro no começo do século XX, e criadas apenas para serem boas esposas. São as nossas mães, avós e bisavós, invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar a própria vida. […] Capaz de falar de temas como violência, marginalização e injustiça com humor, perspicácia e ironia, Martha Batalha é acima de tudo uma excelente contadora de histórias. Uma promessa da nova literatura brasileira que tem como principal compromisso o prazer da leitura.”

Quando Guida foge de casa com um rapaz causando tremendo desgosto aos pais, Eurídice promete a si mesma que seria uma dona de casa de exemplar. Mas essa não é Eurídice Gusmão. Ela tinha uma parte que não sabia se reprimia ou se ouvia, ela sabia da sua capacidade e desejo de ser muito mais que uma simples dona de casa. Se não fosse pelo casamento e pela sua promessa, poderia ter sido uma flautista famosa, ou uma estilista renomada, ou uma cientista, ou qualquer coisa que ela quisesse ser, contudo não foi.

A história aqui poderia ter sido facilmente inspirada no conto “Amor”, da obra Laços de Família, de Clarice Lispector, onde uma dona de casa tem uma epifania sobre poder ser mais do que uma dona de casa causado por uma quebra em sua rotina. Eurídice vivia em uma eterna epifania. Ela não aguentava sua rotina monótona de esposa e mãe sem se ocupar com algo. Havia, dentro de si, uma imensa necessidade de produzir. Quando não realizava isso, era preenchida por uma vasta tristeza. Diferente de Ana – curiosamente é também o nome da mãe de Eurídice -, personagem de Clarice, a protagonista de Martha aspirava por uma quebra em sua rotina. Ela tinha muito tempo para pensar na vida enquanto fazia as tarefas domésticas. E pensar na vida é pensar em quem poderia ter sido, por isso maquiava esse sentimento com algum ofício, que por um tempo, até Antenor, seu marido, desencorajá-la, alimenta sua alma. 

A escritora Martha Batalha

É um livro sobre as discriminações e as desigualdade do sexo feminino. Acompanhamos a vida de Eurídice desde da infância a vida adulta, enfatizando os momentos perdidos e moldados por ter nascido mulher. Entretanto, não é apenas de sua história que temos conhecimento, isso pelo fato da autora nos dar pinceladas de narrativas de outras mulheres e de como o machismo envolve todas, principalmente de Guida.

Guida é bem diferente da irmã. Seu destaque chega apenas na metade do livro, todavia ela tem um papel fundamental por nos apresentar uma perspectiva da violência de gênero que Eurídice não pode nos dar, afinal ela ainda é uma mulher de classe média alta. Essa descobre sua gravidez no instante que foi abandonada pelo marido. É quando resolve procurar pelo pai para ser recebida de volta em casa, mas infelizmente ele nem olha em sua cara. Decidida a criar o filho sozinha, Guida passa por situações extremas que futuramente precisou enterrá-las se quisesse casar novamente, pois afinal, que homem aceitaria uma mulher tão imoral?

Mas Guida não era imoral. Era mulher. E ninguém jamais entenderia isso.

“Havia a convicção de que Eurídice só podia ser levada a sério quando dizia que o jantar estava na mesa, ou que era hora de acordar para a escola. Seus projetos estavam confinados ao universo daquela casa.”

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão é sobre a invisibilidade da protagonista e de todas as mulheres. É sobre serem notadas apenas quando precisam de uma roupa passada ou uma comida bem feita, porém suas individualidades nunca importarem. Os projetos não importarem. Seus anseios e necessidades não importarem. E claro, sobre a vida que não tiveram, que foram tomadas por desejos e vontade de outros. A obra de Martha Batalha já pode ser considerado um clássico da nossa literatura, dado a imensa importância e verossimilhança de sua personagem tão bem desenvolvida e inteligente. Eurídice Gusmão vive em todas nós. 

Comentários

Ana Barbosa

Estudante de Jornalismo, feminista e enaltecedora de mulheres na arte. Viciada em séries, principalmente em Doctor Who, compra mais livros do que consegue ler e não recusa um café. A típica canceriana que chora em todos os filmes que assiste, ou pelo menos quase todos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *