Resenha – Baixo Esplendor (Marçal Aquino)

Tudo começa do suor. E esse suor que pode vir de várias formas, desde uma excitação pelo sexo, ou até mesmo por um medo, ou, por fim, por conta de uma corrida na rua. O mesmo suor que faz parte intrínseca de quem somos, e ele realmente reproduz tudo que completamos como natureza. Sem ele, simplesmente não existimos. Com toda essa ideia inicial, o mais novo livro do autor Marçal Aquino se inicia. Baixo Esplendor observa toda essa ideia corporal e física para construir a personalidade de Miguel – será que é esse nome mesmo? Ele é um agente de polícia infiltrado em uma organização criminosa. Ali dentro, no entanto, irá se envolver de formas profundas com tudo e com todos, especialmente com uma mulher pelo qual se apaixona.

Começar com um conceito físico e químico consolida bem o que poderia ser o personagem Miguel. Alguém especialmente mais próximo das ciências exatas do que das humanas, principalmente pelo fato de ser da polícia. Porém, esse não é o personagem principal dessa história, mas sim um ser múltiplo e igualmente falho, humano. É curioso como a narração do livro, feita por alguém onisciente, sempre precede sensações e sentimentos que estarão presentes futuramente na vida do protagonista. Por exemplo, a sensação de culpa é algo muito forte dentro dele por querer acabar se envolvendo tanto nessa organização criminosa. E, dentro disso, há duas outras personas que trazem bem algumas características fundamentais que afloram com Miguel: Nádia e Ingo.

Eles são irmãos e o personagem nutre aqui uma sensação sempre estranha para com os dois. Com a primeira, é o lado do romance e do tesão. Toda a paixão e as possibilidades de criar uma vida feliz estão colocadas com essa mulher, pelo qual ele julga ser a mulher da vida dele. Aquino, por isso mesmo, descreve sempre com muita paixão o momento dos dois juntos. Existe também um certo lado cotidiano pelo encontro de ambos acontecer, mesmo que de forma sabida por todos, às escondidas. Já o segundo, trata-se do chefe da organização criminosa investigada. A relação dos dois passa de um estranhamento inicial para uma profunda amizade, a ponto do personagem principal se transformar em um braço direito. Ao mesmo tempo que distantes, eles também se transformam em muito próximos.

De toda forma, os elementos que colocam Baixo Esplendor como um livro tão complexo são as possibilidades dessas seres. Acima de tudo, é possível encontrar que existe uma correlação clara na base dramática da obra: o suspense e o romance. Eles caminham juntos para colocar a narrativa sempre atrás de uma busca por explicações, como em ambos normalmente têm. No entanto, o mais curioso é a forma como isso acaba nunca sendo de verdade, nunca podendo trazer soluções verdadeiras. Desse jeito, em vez de queremos muitas vezes entender mais sobre a situação ou saber mais daquela história, estamos curiosos para que o desenvolvimento não acabe. Para que esse universo nunca seja finalizado de vez.

Com isso tudo, Marçal Aquino consolida uma produção que parece não se contentar com apenas coisas únicas, mas com a multiplicidade do campo nesse mundo. São todos personagens falhos, diversos e com muitos olhares diferentes, capazes de poder causar uma relação de paixão, mas também de distanciamento. Apesar disso, todos causam comoção e são capazes de gerar alguma afeição pelos leitores. Por isso mesmo, Baixo Esplendor se transforma em um livro sobre o corporal, o físico, que está presente nos protagonistas, mas também encontra-se no público, que sente todas as emoções possíveis.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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