Sentimentos reais demais para abstrair: O legado de Disintegration, do The Cure

O PERÍODO PRÉ-DISINTEGRATION

Aqueles da gravadora não entendiam que cada vez mais estávamos conectados com o nosso público, e demos o que eles nos pediram, o que era precisamente o que nós mesmos andávamos buscando. – ROBERT SMITH

Ouvir Disintegration é como viajar pelos sentimentos mais obscuros do vocalista Robert Smith

Em abril de 1988, Robert Smith, vocalista do The Cure, reconhecido na mídia não só por ser o vocalista de uma das bandas mais populares do planeta, mas também por seus cabelos desgrenhados e visual soturno, completou 29 anos, e em um ano teria 30. De repente, o medo de envelhecer bateu na sua porta, aliado ao reconhecimento de que, enquanto artista, ainda não tinha dado o máximo de si e perdido noites de sono polindo sua obra-prima.  Apesar de uma extensa carreira que já durava 10 anos e sete álbuns de estúdio na bagagem, o The Cure havia se tornado uma banda sem muita identidade, com muitos desentendimentos internos, formações diferentes ao longo dos anos e, principalmente, um conjunto de música pop, termo aqui aplicado de forma a referenciar sua sonoridade mesmo. Com hits como Boys Don’t Cry, Close to Me e Just Like Heaven tocando em rádios do mundo todo, os integrantes da vez queriam modificar o status quo da banda e fazer algo prioritariamente para eles, que refletisse o estado de espírito e a confusão mental de seu líder, além dos conflitos entre os sobreviventes ao caos que havia se instaurado.

A falta de comunicação e empatia entre os membros do The Cure era tanta que o vocalista já havia manifestado à época seu interesse em lançar material solo, fato que só não se concretizou porque o restante da banda aprovou o material demonstrado por Smith antes das gravações oficiais. Para agravar a situação, o co-fundador e segundo membro mais importante do Cure, Lol Tolhurst, estava vivenciando um período de entrega total a seus demônios, bebendo e se drogando até não poder mais, o que resultou não apenas em mais brigas como também em sua saída da banda no cargo de tecladista, dando lugar a Roger O’Donell, que já havia tocado com a banda mundo afora, em algumas turnês. Cansado e esgotado da imagem que ele mesmo ajudou a vender, a de um líder excêntrico que se ajustava à fama justamente por ser diferente, por não se encaixar no mundinho fechado que o abrigava, Smith queria agora mostrar ao mundo que podia sim ter seu espaço nele, e o fez da forma mais direta e inimaginável possível: reinventado a sonoridade original da banda, aquele som brusco e incisivo do pós-punk, mas com menos raiva e mais harmonia, trazendo à sonoridade dos Cure uma quantidade maior de instrumentos e uma característica que se tornaria marca da banda daí em diante, as longas aberturas instrumentais. Em certas faixas do álbum, podia-se contar mais de um minuto, às vezes até dois, até a voz única de Smith entrar em ação. Mas isso é assunto para mais tarde.

A vida pessoal de Smith àquela época não poderia ser melhor, entretanto. No ano de 1988 finalmente casou-se com sua companheira de longa data, Mary Poole, em sua cidade natal, Crawley, no Reino Unido. Mesmo satisfeito em concretizar uma união matrimonial com alguém que conhecia desde pequeno, o artista estava em processo de materializar a angústia de sua existência, e o fez não apenas concebendo seu magnum opus, a obra com a qual seria lembrado eternamente, mas também consumindo drogas alucinógenas e dando vazão à depressão de quem se sentia, como expressava o título de seu próximo disco, desintegrado em vida: perdido, desassociado de seu corpo e de suas emoções, sem identidade; deixado em algum lugar no meio do caminho entre ser um astro pop ou fazer o que queria por convicção plena e deixar a fama transparecer naturalmente, através do legado de suas obras. Considerada uma decisão de risco e um “suicídio comercial” pela gravadora Fiction, a escolha já estava tomada. Smith, hoje, não se arrepende nem um pouco, chegando a ter dito em entrevistas que a banda estava conectada com seu público, sabendo exatamente o que eles queriam, ao invés de se alertar às vãs convicções da mídia, interessada em lucro e em efêmeros espasmos de criatividade.

Mary Poole e Robert Smith: a vida corria bem, mas a mente do líder do The Cure, não.

DISINTEGRATION E SUA INFLUÊNCIA SOBRE OS FÃS DO CURE

Quando era novo, conseguia pensar no que me incomodava em termos abstratos, agora não. Os sentimentos são reais demais. – ROBERT SMITH

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As lembranças de Robert Smith: uma foto que sobreviveu ao tempo, durante um incêdio, de sua mulher, Mary Poole, foi usada como capa do single Pictures of You.

No filme Interiores (Woody Allen, 1978), há uma cena em que a personagem de Diane Keaton refere-se à sua irmão, interpretada por Mary Beth Hurt, como uma artista incompleta, pois, para atingir o ápice de sua condição, lhe faltava a angústia; para Robert Smith, líder da banda The Cure, nunca faltou, nem mesmo em seus momentos mais irreverentes e radiofônicos como líder do conjunto. Sempre vimos em seu olhar um quê de tristeza, e no álbum Disintegration, de 1989, sétimo trabalho de estúdio dos Cure, tal sentimento nunca se fez tão evidente de forma tão concreta. Como pontuo no título do texto, aqui Smith deu “um pingo aos ‘is'”, e materializou em disco todos os seus demônios e segredos mais íntimos. Recém-casado com a mulher de sua vida e com 29 anos recém-feitos, o músico vivia um inferno pessoal sem fim, evidenciado pelo medo de envelhecer, o medo da morte bater à sua porta a qualquer momento e ele ainda não ter estancado toda sua dor com arte.

Segundo o próprio Smith, Disintegration era um álbum com forte teor cinematográfico, com letras bastante imagéticas e até mesmo poéticas, capazes de transportar o ouvinte a um cenário dolorosamente familiar, como um mundo de fantasia povoado por sentimentos reais, com direito a introduções que tinham vida própria e às vezes, se você ouvisse no volume máximo, carregavam um impacto tão grande quanto a voz do vocalista Robert Smith, por vezes sussurrada, como se o máximo de sua carga vocal fosse atrapalhar aquela viagem instrumental.

Com dois minutos e meio de um show instrumental, antes mesmo da voz de Smith sussurrar de maneira suave um diálogo entre um casal, de forma não-convencional, sem a clássica estrutura verso-refrão, a faixa de abertura, Plainsong, te joga pra dentro daquele mundo de instrumentos sólidos: sintetizadores em excesso, teclados retumbantes, guitarras monolíticas e percussão cavernosa, sombria. Um verdadeiro épico discreto, que já te configura logo de cara em um universo (des)acolhedor, carregado de melancolia e uma frieza que geralmente não é associada a sentimentos, e sim à ausência deles, mas, aqui, a morte nunca esteve tão perto da vida, a indiferença nunca esteve tão perto do apego. Em versos como “Está tão frio, é gelado como se você estivesse morto“, seguido por “Então você sorriu por um segundo“, Smith destila liricamente esse misto de sensações, o riso como a maneira de lidar com a dor; o inevitável choque de sentimentos estampados nas ações projetadas por uma mente angustiada.

A canção seguinte, Pictures of You, um dos singles do disco, aparentemente não tem nada a ver com a vida de Smith, pois fala de uma situação bastante específica, em que as únicas lembranças que você tem de alguém amado são as fotos da pessoa, de tal forma que às vezes dói olhar. Nessa faixa, Smith canta com sua intensidade vocal máxima: seu vocal não é mais sussurrado, e, sim, escancarado, de tal maneira a às vezes se assimilhar a um grito de dor, um pedido de socorro no escuro. O contexto da letra sombria é o seguinte: durante um incêndio ocorrido na casa de Smith, ele teve que se desfazer de vários de seus pertences pessoais, incluindo várias fotos de sua esposa, talvez seu bem mais precioso. Em resposta a esse sentimento nostálgico e à paz que lhe trazia olhar por horas e horas o rosto dela, o vocalista do Cure não apenas compôs sobre isso como também utilizou a “foto sobrevivente” como capa do single de Pictures of You. É uma canção inerentemente triste, ainda mais quando sabemos de seu background. Ouvi-la é como entrar em uma caverna de memórias do vocalista, ao passo que a canção também tem o poder de se individualizar em cada ouvinte, podendo representar a dor de um término, em que a pessoa se foi, mas as imagens não.

Falando de sua esposa também, mas dessa vez de um jeito mais feliz, ao menos liricamente, vem a faixa Lovesong, já regravada inclusive por fenômenos musicais como Adele, uma faixa que celebra a união entre Smith e Mary, concebida como um presente de casamento do vocalista a ela. Direta e curta, a faixa carece de uma introdução épica como as duas citadas anteriormente e também as outras faixas do disco de uma forma geral, mas o que falta de introdução sobra em letra e sentimento exposto. “Sempre que estou sozinho com você, você me faz sentir como se estivesse livre de novo“, canta Smith, materializando e musicalizando uma expressão de um sentimento de liberdade que perdurava mesmo quando ambos estavam juntos, uma força direcional que só o amor é capaz de proporcionar. Curioso notar, entretanto, como o clipe e a sonoridade da música contrastam com a letra, evidenciando mais uma vez um lado dark da banda, um mergulho no lado mais sombrio da psique humana.

De Last Dance, que versa sobre um reencontro entre duas pessoas que não se viam há muito tempo, projetado sobre o envelhecimento de uma das pessoas e a “rejuvenescência midiática” da outra (Smith, no caso), que como todos os artistas de sucesso parece ter mais vida a cada ano que chega perto da morte, responsável pela morte dos sentimentos de outrora, à faixa-título, marcada por batidas incisivas e uma letra bastante fatalista, quase um aviso de Smith a ele mesmo, de que a forma como o cantor levava a vida poderia dar fim a ela, além de uma auto-reflexão sobre decisões tomadas ao longo de seus 29 anos, passando por Untitled, descrita por Smith como “uma canção esperançosa em um mundo desesperançoso”, o álbum mergulha fundo na introspecção de uma mente conturbada e afogada em memórias, remorso e sonhos destruídos, que não conseguia encarar com tranquilidade a felicidade, fazendo jus ao sofrimento de todos os ouvintes da banda e do disco.

Não à toa, na cópia original do disco havia um aviso: deve-se ouvir bem alto, de preferência sozinho em um quarto escuro, para as músicas exercerem uma potência maior em quem ouve. Sozinho ou acompanhado, o álbum sempre exerce a mesma sensação em mim: a de que aqueles versos angustiados e melancólicos, presos na própria tristeza que os abriga, poderiam ter sido escritos por mim em um de meus devaneios sobre a vida e em qualquer momento de vulnerabilidade. Em Disintegration, Smith conseguiu alojar em versos cliques de pane, flashes de instabilidade, e os registrou de forma sábia, de tal maneira que esses momentos de introspecção parecem ter pertencido a uma vida inteira de desilusão e tristeza.

Comentários

Pedro Daher

Tenho tantas ideias quanto cabelo na minha cabeça, e dizem, e eu concordo com quem diz, que gosto de transportar o que se passa em minha mente inquieta para o papel físico ou para o texto reproduzido na tela do computador. Entre minhas principais paixões estão vários elementos que compõem a cultura pop, como a música e o cinema, em suas mais diversas formas, e a escrita que traduz em sentimento esses interesses.

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