A falta de diversidade no Nobel de Literatura

O prêmio Nobel de Literatura é uma das maiores honrarias que qualquer autor pode receber. Receber algo tão importante para a história dessa arte no mundo, catapulta o nome da pessoa, além de trazer novos olhares para sua carreiras, especialmente do lado do público. Desse jeito, é impossível ser uma pessoa participante do meio e não querer receber essa premiação com o seu nome. Contudo, será que ela realmente foi democrática na diversidade literária ao longo do tempo? Será que mulheres tiveram um espaço reconhecível? E os negros? Bom, realizando esses questionamentos, percebemos como esse troféu não favoreceu a todos.

Em um levantamento especial feito pelo Senta Aí, foi possível perceber as descrepâncias existentes. O grupo dominante dos vencedores do Nobel de Literatura são homens brancos. Esses representam 95% dos que venceram. Aliás, esses homens vencedores são 87% de todos 116 laureados com essa premiação – 101, para ser exato. Dessa forma, é possível perceber que os homens brancos, como dito acima, são 96, sendo só 5 não representantes dessa categoria.

Olga Tokarczuk, vencedora do Nobel de Literatura de 2018

Se a questão dentro do gênero masculino é algo já absurdo, quando comparamos com as mulheres a situação fica ainda mais complicada. Como dito anteriormente, 87% são homens, ou seja, somente 13% das que ganharam são do gênero feminino. Apenas como destaque para o lado mais impressionante disso tudo é que até a década de 90, os 10 anos que foram melhores para elas foram os anos 20. E, pasmem, com apenas 2 ganhadoras. Agora estamos na terceira década seguida que as mulheres tem se mantido com algum destaque, contudo apenas com 9 vitórias nos últimos 30 anos.

Apenas sob efeito de curiosidade, a primeira vencedora da premiação foi logo nos primeiros anos. Em 1909, Selma Lagerlöf conquistou o prêmio. Ela acabou nunca sendo muito reconhecida mundialmente. Entretanto, essa menção se torna ainda mais necessária quando se vê que Selma foi a primeira mulher a entrar na academia sueca de literatura, em 1914. Como comparação, a primeira a adentrar a Academia Brasileira de Letras foi Rachel de Queiroz, no ano de 1977.

Chegando até a questão racial, toda essa dicussão torna-se ainda mais complicada. Isso porque apenas 3 negros  (2,5%) foram os ganhadores do maior prêmio de literatura do mundo. E a última pessoa negra a conquistar foi Toni Morrison em 1993. Aliás, ela é a única mulher negra a conseguir ser laureada. Morrison ainda é a única afro-americana com seu nome por lá, já que os outros dois homens vencedores – Wole Soyinka e Derek Walcott – são de, respectivamente, Nigéria e Santa Lucia.

Há ainda um outro grupo pouco representado e sem muitas explicações para isso. No caso são os asiáticos, que tiveram apenas homens conquistando de Japão e China. Esses, assim como os negros, possuem apenas 3 representantes, sendo 2,5% do total. O último foi o chinês Mo Yan, em 2012.

A única mulher negra a vencer o prêmio, Toni Morrison

Todas essas microquestões colocam as vias de como a literatura acabou sendo voltada, durante muitos anos, para uma determinada classe e cor. É até meio difícil dizer que não está ainda atrelada nesse contexto, visto que o último vencedor, no caso Peter Handke, segue bem esse padrão. Falta uma verdadeira tentativa de premiar grandes nomes da história dos livros na qual acabaram renegados pelas páginas do tempo por simplesmente terem nascido mulheres ou negros ou até ambos.

O maior problema disso tudo é que as atitudes da academia de literatura sueca parecem estar longe de buscar algo novo. Impossível esquecer que não houve entrega de prêmios no ano passado pelo fato de um dos votantes ter sido incriminado em casos de assédio. Enquanto houver uma certa ideia e concepção prévia do meio, haverá uma maior falta de representação e identificação desses grupos identitários. Resta, apenas, uma revolução no pensamento, ou, quem sabe, mudanças significativas na parcela dos votantes, como feito pelo Oscar recentemente, por exemplo.

Arte da capa por Ana Paula Barbosa.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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