A Gente Se Vê Ontem e a estruturação do racismo

Logo nos primeiros minutos de A Gente Se Vê Ontem, Mr. Lockhart (Michael J. Fox) aparece lendo o livro Kindred em sala de aula. Escrito por Octavia E. Butler, a obra retrata uma mulher negra que volta no tempo e acaba se deparando com a escravidão, devendo assim resolver problemas de seu passado familiar. Aqui toda essa relação da viagem no tempo também é retratada sob uma nova ótica. Enquanto estamos acostumados a ver personagens brancos irem para o passado e enfrentarem apenas suas histórias, negros precisam observar o passado. O racismo estrutural, presente no curso da civilização humana.

Na trama, CJ (Eden Duncan-Smith) e Sebastian (Dante Crichlow) são amigos extremamente inteligentes que buscam fazer uma máquina do tempo, ainda que não saibam bem como isso funcionaria. Se, inicialmente, a ideia do projeto era ser exibido em uma feira científica, eles se deparam com um problema maior. Calvin (Astro), irmão de CJ, é assassinado pela polícia ao ser confundido com um assaltante de uma loja. Dessa forma, a dupla faz de sua missão voltar ao fatídico dia e mudar o passado.

É interessante a forma como a direção de Stefon Bristol apresenta toda uma relação de ancestralidade e negritude. Seja isso realizada com sequências mostrando uma cabeleira fazendo o cabelo black power, seja na constante aparição de um passado (ilustrado através de bandeiras dos países africanos e latinos). Esse lado do passado é primordial para uma obra como Kindred, mas aqui ele é uma ilustração da passagem do tempo. Agora os jovens negros podem até sonhar, ainda que sejam limitados socialmente pela própria família ou pelo Estado. Uma cena que retrata isso é a aparição do avô de Sebastian no laboratório dos dois, falando para o menino arranjar um trabalho de verdade. É como se houvesse uma limitação de existência, não importa o lado.

É através dessa sugestão imagética da encenação surge a trama principal do longa. As regras se definem de maneira bem direta, através de alguns dispositivos estéticos apresentados por Bristol. A viagem, o tempo de 10 minutos, a possibilidade de paradoxo, isso tudo é deixado bem claro no avançar da narrativa. Eles até servem para causar a tensão proposta nesse possível retorno do irmão. O professor Lockhart, inclusive, diz para a personagem de CJ sobre esse peso necessário ao realizar tal ato. Peso esse, na qual pode ser sentido através do tempo e espaço. A fala, direcionada para um caminho mais ético, atrela bastante mais quando a situação racial é levada a tona.

Toda essa ideia da estruturação racial é deixada clara também bem cedo. Até em um certo caminho de antecipar os eventos futuros da obra. A batida policial em uma discussão entre irmãos, os personagens vendo na TV manifestações de ‘Black Lives Matter’ (Vidas Negras Importam). É uma forma de tudo ser deixado mais claro dessa eventualidade quase disruptiva da sociedade. O universo é proposto por uma problemática clara, sem nenhum receio de ser pesada diretamente, todavia há uma tentativa contemporânea de quebrá-lo. Nesse caminho, é intrigante o final amargo, misturando uma positividade inerente de todo o movimento negro, mas também relatando algo bastante inerente. A tentativa de alterar a realidade existe, porém é puxada para baixo em um mundo racista.

Há uma problemática em termos do tom colocado aqui de frente. Em um lado, o drama funciona para gerar motivação específica a cada um dos personagens. Ele se torna menos forte em alguns, entretanto é bastante últil na dupla de protagonistas. Mas, seu balanceio com a comédia acaba sempre sendo uma certa puxada. Logo após uma reviravolta no meio da trama, essa correlação do melodrama exacerba bastante. Mesmo assim, uma cena seguinte a essa traz toda a comicidade de Eduardo (Johnathan Nieves) a tona. Esse desbalanço já é naturalizado inicialmente, quando as piadas se sobrepõem. A mistura de tons eleva um caminho confuso e quase deixa cair de lado a relevante discussão temática.

A Gente Se Vê Ontem traz uma correlação temática interessante ao exaltar toda esse passado da negritude. Dentro desse mesmo meio, ele coloca de frente essa estrutura do racismo onipresente na sociedade e nas tentativas dos personagens. Apesar de se perder na sua potencialidade dramática – especialmente no ato final -, o filme consegue bem colocar seu universo cheio de elementos únicos. Afinal, a história do racismo sempre foi sobre tirar esse pertencimento. Stefon Bristol busca, aqui, escancará-lo para o mundo.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *