Crítica – American Crime Story (3ª Temporada)

Não se pode falar da terceira temporada de American Crime Story, com o subtítulo Impeachment, sem falar das mulheres que estão presentes na história, tanto em sua versão dramatizada quanto na real. O nome mais conhecido é o de Monica Lewinsky, a estagiária da Casa Branca que teve um relacionamento com o presidente Bill Clinton que engrossou ainda mais as acusações que o político encarava na época. O outro, menos conhecido, é o de Linda Tripp,  funcionária pública e grande responsável por fazer o affair entre os dois vir à tona.

Essas duas personagens são os grandes pilares da série, e o modo como elas são tratadas colocam a produção, que tem como um dos temas justamente o modo como as mulheres são tratadas pela mídia, em uma estranha encruzilhada. Enquanto uma recebe um tratamento muito mais positivo, outra é representada de modo um tanto impiedoso, que acaba beirando a caricatura. Este último é o caso de Tripp, interpretada por Sarah Paulson sob um forte trabalho de maquiagem e por meio do fat suit – algo que a atriz pediu desculpas por fazer – e cuja história é o grande foco por boa parte dos 10 episódios da série. Tripp entrou na Casa Branca durante o governo Bush, e com a eleição de Clinton, acabou se tornando uma indesejável remanescência do presidente passado, e foi transferida para o Pentágono, para ser esquecida.

American Crime Story não tem muita simpatia por esta mulher, frequentemente filmada sozinha em sua casa, olhando avidamente as notícias, buscando seu momento de fama e de proximidade do poder. Tripp, tal como é mostrada na série, é uma figura grotesca, efeito atingido tanto pela maquiagem quanto pela atuação de Palson. É difícil não sentir certa hipocrisia quando, mais ao final da série, a personagem fala do quanto sofreu por sua aparência, quando a própria produção contribui para esse aspecto, mesmo após a morte de Tripp.

Essa vilanização da servidora pública se torna ainda mais evidente diante do modo como Lewinsky (Beanie Feldstein) é tratada, que é com a luz mais positiva possível diante das circunstâncias, sendo sempre a menina manipulada por tudo e todas, mas especialmente por Tripp, quem considerava sua amiga. Enquanto Monica desabafava suas dores de amor por Bill Clinton (Clive Owen), Linda gravava avidamente as conversas sem permissão, a montagem enfatizando esse aspecto obsessivo da gravação, encurtando o espaço de tempo entre uma e outra, com pilhas e pilhas se formando.

Longe de mim querer dizer que a atitude de Linda Tripp em gravar Monica secretamente foi nada menos do que uma traição da confiança entre as duas, e que Lewinsky é, de fato, uma das vítimas nesse caso, mas é difícil não ficar consternado com o modo que a primeira mulher é tratada. Em certa cena, vemos o modo horripilante que Mônica era retratada pelos jornais e programas da época, mas não estaria American Crime Story fazendo a mesmíssima coisa, anos depois, mas com um alvo diferente dessa vez? “Eu odeio Linda Tripp”, diz a personagem em frente ao júri no episódio final da série, e todos do juri riem, concordando com Monica.

Se essa relação com as mulheres que sustentam a história é confusa, o mesmo vale para outros temas que passam pela narrativa. A nova obra de Ryan Murphy quer ser retrato íntimo, político e midiático dos vários elementos presentes no quase impeachment de Bill Clinton, e acaba se perdendo um pouco pelo caminho. Por exemplo, uma das tramas da série diz respeito ao surgimento do movimento conservador americano moderno – aqueles que ficaram atentos ao governo Trump irão reconhecer alguns nomes desse setor ao longo da série – mas os personagens que dizem respeito a esse mundo entram e saem da trama sem grandes explicações, mesmo sendo parte importante do cenário que está sendo construído.

Mesmo diante desses problemas, American Crime Story engajou o bastante para me manter interessado semana após semana, mesmo que funcione mais como uma espécie de “fofoca” do que outra coisa. A imagem da presidência americana, culturalmente falando, possui uma fachada tão “certinha” que é difícil não se interessar nos detalhes menos primorosos dessa instituição.

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