Crítica – Campo do Medo

A premissa de Campo do Medo tem obstáculos muito claro: como construir uma narrativa de quase 2 horas em um cenário tão banal quanto um campo de grama alta? Como não fazer com que o filme fique visualmente insosso? O diretor Vincenzo Natali (Cubo) decidiu encarar esses problemas, e apesar dos esforços, parece que esta era uma obra que não funciona tão bem fora das páginas.

Baseado no conto de mesmo nome que Stephen King co-autorou com seu filho, Joe Hill, a obra conta a história dos irmãos Becky (Laysla de Oliveira) e Cal Demuth (Avery Whitted), na qial se dirigem para São Francisco, para que Becky, grávida, deixe seu filho com uma família adotante. Fazendo uma breve parada após um pequeno mal estar, a dupla se depara com um campo de grama alta, e dentro dele, a voz de um menino, Tobin (Will Buie Jr), pede por ajuda. Preocupados, eles decidem entrar no campo, mas logo começam a perceber que algo está errado,e a sensação piora quando outras vozes, em que se identificam como mãe e pai de Tobin, pintam um quadro cada vez mais bizarro. Quando dão por si, os Delmuth estão separados, e sem poderem se reunir, já que a geografia do local se altera. Enquanto isso, Travis (Harrison Gilbertson), pai do bebê de Becky, se aproxima do local, e logo estará perdido no matagal.

O grande mote das histórias de King são menos seus elementos sobrenaturais, mas sim suas relações com os sentimentos bem humanos. Cemitério Maldito, por exemplo, tem sua base no compreensível medo de perder entes queridos, e explora esse sentimento através do horror. Campo do Medo até tenta fazer algo semelhante, colocando em jogo os laços familiares diante de um cenário inexplicável. Existem momentos de tensão acerca de superprotetividade de Cal sobre Becky, da relação de Travis com seu cunhado e pai de Tobin, Ross (Patrick Wilson), deve muito de sua aura vilanesca ao jeito que se refere e trata sua esposa e filho. Mas, ao invés de ser uma temática construída ao longo da narrativa, se resumem a momentos isolados, detonados quando se é necessário algum conflito para mover a trama.

Ao virar sua atenção para o fantástico, Vincenzo é melhor sucedido. O design de som nos primeiros minutos do filme dão um toque especial a geografia mutante do campo. Vozes que antes estavam perto, ficam distantes entre uma frase e outra, ajudando a imersão em nos fazer sentir a desorientação. As sequências de alucinação, no qual são as que mais chegam perto de explorar a “mitologia” por trás de matagal, são verdadeiramente memoráveis e grotescas, e até aparentam levar o longa para um caminho mais interessante, mas logo retorna a mediocridade.

Mesmo flertando com coisas mais extraordinárias, Campo do Medo parece estar decidido a ser uma espécie de slasher um tanto sem graça, e nunca vai fundo nos mistérios e temas que apresenta. A obra nunca explicita os porquês da entidade maligna que habita o matagal, o que por si só não é um defeito, e por vezes é até melhor não ter muita explicação, contudo a trama reluta tanto em ter uma relação mais frontal com o sobrenatural, que o deveria ser misterioso, soa simplesmente mal desenvolvido.

Recentemente, Vincenzo Natali divulgou as artes conceituais que ele e outros artistas desenvolveram para o longa, que apresentam cenários muito mais interessantes do que o que de fato se apresenta na tela. Vendo essas artes, percebe-se que havia intenção honesta de se realizar um trabalho singular, mas que nunca se eleva pra além do mediano. 

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