Crítica – O Jovem Ahmed

Os irmãos Dardenne possuem, na sua filmografia, um olhar sempre bastante simplista de um mundo francês. É sempre uma sociedade sobre os traços pequenos do mundo, como em Dois Dias, Uma Noite e O Garoto da Bicicleta, em uma visão atrelada aos mais pobres e ao sofrimento dessa vida em uma outra realidade. Em O Jovem Ahmed, Jean-Pierre e Luc até continuam nessa toada, no entanto, buscam elementos a mais para desenvolver sua história, especialmente na conexão islâmica. A sociedade francesa contemporânea é permaneada dessas novas figuras. Os cineastas parece querer entender como esse novo meio está se fundando.

Acompanhamos o cotidiano do jovem belga Ahmed (Idir Ben Addi). Ele, advindo de uma família islâmica, mas que nunca praticou tão ativamente a religião, começa a ficar totalmente cego a ela. Nisso, se vê entre diversos parâmetro do mundo atual, como a força das mulheres, como quase uma relação destrutiva. Por isso, ele cria o plano para assassinar sua professora, após uma interpretação de um dos livros sagrados.

A partir desse plot, pode-se imaginar uma narrativa desmembrada na discussão sobre todo o entorno. Porém, a direção sempre busca a visão do menino para aquela situação. Pode ser extremista, mas ela tenta entender seu olhar, algo que pode acabar levando o longa a ter interpertações de ser xenofóbico ou extremamente complacente com seu extremismo. Após seus elementos inicias, a obra, todavia, acaba adentrando para uma visão mais complexa do próprio personagem, tornando-se mais um estudo situacional do que propriamente um desenvolvimento maior ali. Nesse sentido, o olhar sobre a religião fica perdido em um contexto que parece não saber desenvolver tão bem até onde vai.

Apesar disso, esse verdadeiro desenvolvimento ao personagem principal é relevante para entender suas motivações, especialmente a partir do segundo ato. A vida com a família, especialmente a mãe, torna-se cada vez mais desgastada, porém sem essa desistir dele – a cena final reforça ainda mais isso. Em busca de entender um contexto mais geral, a narrativa sempre caminha para uma visão individualizante, algo até complicado de ser trabalhado em uma pessoa com ideias radicais. Nesse lado, pode-se opinar que a obra é, verdadeiramente, irresponsável, por tratar todos os descendentes os islâmicos como verdadeiramente radicais, mesmo que esses “possam mudar”. Talvez faltasse enxergar como a relação complexa dentro da trama afetou todo um contexto. Enfim, as possibilidades eram diversas e olhar acaba sendo menos desenvolvido.

O Jovem Ahmed parece muito mais um filme que quer abordar diversas coisas sem ter realmente um maior entendimento sobre elas. Na busca de olhar para uma sociedade cada vez mais complicada em suas diversas partes, especialmente pela entrada de novos indivíduos e pensamentos nela, os Dardenne buscam trazer apenas uma visão única de mundo. Em uma relação passada, isso até faria sentido, entretanto, no atual estágio da França, pode soar quase agressivo para aqueles que apenas querem sobreviver. Não chega a ser propriamente uma obra irresponsável e nem ruim – até por acompanharmos um estudo complexo de personagem -, mas parece não buscar ressoar em nada a atualidade.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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