Euphoria: Sinceridade, intensidade e catarse

Em operação desde o início dos anos 1970, HBO é um dos maiores canais de televisão do mundo. Com uma programação que consiste em filmes e seriados originais, além de documentários e especiais de esportes e comédia, não é raro que as produções do canal ganhem grande reconhecimento de público e crítico. É difícil comentar grandes produções televisivas das duas últimas décadas excluindo o conteúdo do canal. Six Feet Under, Sex and the City, The Sopranos, The Wire, Game of Thrones…. A lista avança conforme os tempos avançam, já que os títulos e nomes por trás das produções se adaptam junto com o mercado. Por isso, não é surpresa que em 2019 eles estejam avançando para o território juvenil, com Euphoria. 

Criada por Sam Levinson (filho de Ted Levinson e responsável por filmes como País da Violência O Mago das Mentiras) e baseada em uma produção israelense de mesmo nome, a série fala sobre um grupo de adolescentes em um subúrbio sem nome lidando principalmente com drogas, sexo, mídias sociais, amizade e amor. No meio disso está Rue Bennett (Zendaya), uma jovem viciada em drogas que está voltando da reabilitação antes do penúltimo ano da escola. No meio de uma festa, Rue conhece Jules (Hunter Schaefer), que acabou de se mudar para a cidade. Enquanto as duas se conectam através de uma intensa amizade, seus colegas se envolvem em um ciclo de violência, drogas e problemas pessoais, envolvendo uns aos outros de maneira perigosa.

O fio narrativo do seriado, a primeira vista, não parece muito original. E nem é, na verdade. Comparações com títulos como Skins, produção britânica que aborda temas semelhantes, são inevitáveis. Mas durante os primeiros dez minutos do piloto é possível perceber que há algo de diferente aqui. O primeiro destaque é o visual. Algo que parece ser característico do diretor Sam Levinson, a fotografia da série é particularmente inspirada, equilibrando um jogo de cores e iluminação que refletem perfeitamente o clima que as cenas e os personagens pedem. Cria-se então um efeito quase de deslumbramento, transformando uma vida e problemas do subúrbio em uma experiência cinematográfica. Ainda assim, como o próprio criador disse, a intenção não é glamorizar ou romantizar o que está sendo passado na tela, mas criar um filtro estético único para a história sendo contada. E isso funciona muito bem.

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Esse filtro também se expande através da direção. Entre os oito episódios deste primeiro ano, temos nomes promissores atrás da câmeras como Augustine Frizzel, Jennifer Morrison e Pippa Bianco. São realizadoras que respeitam o tom visual estabelecido e ainda assim conseguem trazer sua própria marca para a produção. Além disso, tudo funciona muito organicamente: o roteiro e a direção dialogam perfeitamente entre si. Enquanto acompanhamos a trama principal, também somos apresentados à vida e história pessoal de cada personagem no início dos episódios. Esse formato permite que a série vá a diversos caminhos. No terceiro episódio, por exemplo, quando estamos conhecendo a história de Kat (Barbie Ferreira), há uma sequência animada descrevendo os talentos da personagem para escrever histórias sobre os membros do One Direction. Há muitos planos-sequência bem interessantes também, ressaltando novamente como a parte técnica merece muitos elogios. Confira um vídeo:

É importante destacar também a sensibilidade e destreza com a qual os temas são abordados. Apesar da inspiração na produção original de Israel, Levinson disse ter colocado muitas de suas experiências com ansiedade e vício através de Rue. Tudo é exposto de forma sincera, seja isso em seus momentos mais extremos ou mais sutis. Zendaya se destaca não só pelo óbvio carisma e humor, mas também pelos momentos onde precisa mostrar a vulnerabilidade da protagonista. Não há aqui, em nenhum momento, uma lição de moral ou momento palestrinha. Esses jovens lidam da maneira que podem com gordofobia, sexualização, assédio, violência doméstica, masculinidade tóxica, cultura do estupro e até mesmo uma leve cutucada na indústria pornô. Entendemos, no final das contas, porque esses jovens estão sendo cruéis ou até mesmo cometendo crimes, ressaltando novamente a pontualidade com a qual esses assuntos são discutidos na produção.

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No fim, é bem difícil passar pelo último episódio sem se envolver minimamente com pelo menos um dos personagens. Isso mostra outro ponto louvável: o elenco. Com uma diversidade de jovens estrelas em ascensão, todos tem espaço para mostrar a que vieram. Jacob Elordi, que ganhou reconhecimento do público após a popularidade do romance Netflix A Barraca do Beijo, mostra que pode ser muito mais do que um galã ao encarnar um jogador de futebol com problemas sérios de agressividade e um quase certo transtorno psicológico. Sydney Sweeney, que vem colecionando participações de destaque em séries grandes como Sharp Objects e The Handmaid’s Tale entrega uma atuação simples e comovente com sua Cassie.

Portanto, após um primeiro ano que conquistou uma legião de fãs nas redes sociais, Euphoria se destaca não só pela qualidade enquanto produção cinematográfica, mas também pela excelência em narrativa e construção de personagens. Some isso a um elenco talentoso e uma trilha sonora mais que imersiva (obrigado por isso, Drake) e aí está a receita para o que talvez seja um dos melhores títulos televisivos do ano, uma experiência catártica, cada vez mais incomum, de entretenimento e empatia.

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