I Am a Hero é muito mais que um mangá de zumbis

O subgênero de zumbis tornou-se extremamente complicado quando se fala em trazer obras realmente originais. A Noite dos Mortos Vivos estabeleceu convenções e clichês de uma maneira tão absoluta há 50 anos que é cada vez mais difícil ver algum produto novo e realmente bom. Sendo assim, I Am a Hero – mesmo tendo sido lançado no Japão em 2009 e no Brasil só em 2018 – traz uma revitalização necessária. É um mangá que busca o horror na sua essência, trazendo uma obra bizarra e totalmente assustadora.

A história é sobre Hideo Suzuki. Um homem de 35 anos, criador de uma série de mangá com algum sucesso, mas que atualmente trabalha como assistente de hentai. Além dos seus problemas profissionais, Suzuki não possui uma relação tão agradável com sua namorada e acaba passando o tempo vendo apresentadoras de TV bonitas. Sua baixa auto-estima faz ele criar um amigo imaginário, jogando para fora todas suas frustrações. O grande problema é que o mundo a sua volta começa a mudar, com diversas pessoas se transformando em zumbis aos poucos. Agora, ele precisará sobreviver de todas as formas possíveis.

Esse interessante lançamento da Panini possui uma narrativa bem intrigante logo em seu primeiro volume. Nele, o infestamento dos zumbis acontece mais para as páginas finais, levando uma história sobre o cotidiano de seu protagonista. A questão é a transposição desse medo que ele possui de tudo, fato transposto pela aparição de rostos que o rodeiam desde a sequência inicial. É uma ambientação já necessária para essa construção de um horror que aparece aos poucos.

Inclusive, é incrível como o escritor e desenhista Kengo Hanazawa sabe criar uma tensão sem limites. A cena do atropelamento talvez seja a mais clara sobre isso, se tratando do primeiro instante em que realmente vemos um zumbi. Hanazawa apela para um lado mais gore (sem ter medo de mostrar sangue em momento algum) e grotesco, ao desenhar a mulher com a cabeça e pernas viradas. Essa narrativa se mostra até bastante cinematográfica, ao saber brincar com planos abertos e fechados, entendendo sempre o objetivo de todos esses aparecerem nas cenas. É quase uma relação de entender um espaço cênico presente ali, porém sob o aspecto de imagens.

A intrigante trama ainda abre margem para uma certa tentativa do público leitor em antecipar determinadas situações. Todavia, há sempre surpresas no ar, principalmente nas transformações. Kengo ainda consegue elevar substancialmente um lado imaginativo nesses monstros, muitas vezes sendo até gigantescos e outros esquisitos a primeira vista. Definitivamente, não é um quadrinho fácil de ser lido e digerido (com a brincadeira da palavra).

I Am a Hero é uma das maiores surpresas de lançamentos nas HQ’s em território brasileiro. Muito mais do que isso, é uma tentativa de trazer novidades para um subgênero perdido e levado a ser apenas sequências de The Walking Dead há alguns anos. Tomara que o mangá traga ventos novos necessários necessários para histórias nesse formato de horror, perdidas ao longo do tempo.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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