O preço da desonra dos samurais

“‘Kubi’ siginifca ‘pescoço’, que engloba a cabeça. Todo ser vivo precisa da cabeça para respirar e viver, a não ser que seja uma planta. ‘Dai’ significa ‘substituir’, ‘trocar’, ou seja, tomar um lugar no lugar do outro. Portanto, a junção ‘kubidai’ significa, literalmente, ‘algo que valha a cabeça'”. Essa fala faz parte do posfácio do volume único de O Preço da Desonra, HQ de Hiroshi Hirata recém-lançada no Brasil. A obra retrata justamente o falado pelo autor com o adendo dos caçadores disso. Ficou confuso? Bom, nessa trama vemos a história de um caçador de promissórias, ou seja, promessas de pagamento em dinheiro para não matar.

Esse conceito soturno eleva a narrativa para outro patamar. Se o mais comum de histórias sobre os samurais do Japão – especialmente os retratados da Era Meiji – é o foco da honra que a posição traz, aqui vemos quando isso transforma-se em uma falha. O tomador das provisórias é um homem bem simples e direto, visto que seu objetivo sempre será pegar o dinheiro devido. No entanto, necessita ser habilidoso, para lutar antes as possibilidades de enfrentamento dos devedores. Com essas pequenas histórias, Hirata consolida um interessante retrato histórico e, ao mesmo tempo, uma filosofia sobre essas figuras no Japão.

O que vemos nesse volume são 7 histórias. Isso contando a primeira, o chamado “capítulo inicial”. É nele que o autor consegue explorar melhor as dinâmicas do trabalho de um Kubidai Hikiukenin, ou tomador de provisórias. Esse ponto já aborda como o protagonista é muito mais complexo do que aparenta, trazendo inclusive possibilidades dele também possuir uma provisória. O resto da trama na HQ desenvolve outros pequenos fatos, contudo, ao reconhecermos esse personagem logo no início, travamos uma espécie de confusão sobre suas atitudes. Apesar desses relapsos, a honra é o primeiro lugar para tudo com ele.

Publicado nos anos 70, é interessante pensar como Hiroshi tem um trabalho aprofundado na filosofia desse personagem. Muito mais misterioso do que desenvolvido, ele tem a intenção de se seguir enigmático e quase desconhecido. Isso já faz parte da sua trajetória, até pelo simples fato dele ser menos reconhecido quando aparecer em algum ambiente. O seu trabalho, muitas vezes complicado, parece sempre ser um fardo a ser carregado. Um peso nas costas. Por isso, sua atitude final apenas é a violência. A tentativa passa muito por uma lábia e conversa, com o objetivo do devedor pagar sua dívida.

Porém, quando a violência toma conta das situações – o que não é raro -, o japonês não tem medo algum de ser extremamente explícito. Sangue espalhado e muitos corpos sendo cortados. Isso, inclusive, também parte pelas cabeças decepadas, algo que tem uma relação intrínseca ao nome do trabalho, como falado anteriormente. Ele é um exímio lutador e Hirata não possui medo de trabalhar esses elementos, com os movimentos rápidos sendo demonstrados em poucos quadros e até uma percepção de confusão instaurada. Em alguns períodos é até complexo entender como a batalha se desenvolveu, pelo simples sentido dessa convenção imposta. São nos pequenos desenvolvimentos que O Preço da Desonra se transforma em uma HQ avassaladora. A consolidação de uma narrativa sobre a honra dos samurais parece até comum e natural de produções do gênero, todavia o interessante é pensar na não adequação dessa honra. Como reagir ao ver esses homens destruindo o que haviam falado anteriormente? Como viver com um fardo desses em sua existência? Esses questionamentos podem parecer até bobo para pessoas do século XXI e em uma sociedade ocidental. Entretanto, são altamente pertinentes para um Japão construído através dessa convenção social sobre o caráter. A desonra, dessa forma, pode ser até o pior crime de todos.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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