Polêmico romance de Adolfo Caminha, O Bom Crioulo é relançado no Brasil

Ainda que tenha sido lançado há mais de 120 anos, mais precisamente em 1895, O Bom Crioulo continua rendendo diversas polêmicas no meio literário. Na época de seu lançamento original, a obra de Adolfo Caminha chocou ao se tornar o primeiro livro de literatura brasileira no qual a homossexualidade é retratada, além de abordar o grande tabu dos relacionamentos interaciais. 

No romance, o jovem escravo Amaro encontra na Marinha uma oportunidade de fugir de seu senhor, tornando-se livre. E lá recebe a alcunha de “o bom crioulo”, devido a sua imponência, bondade e benevolência, que o destacava dos outros marinheiros. Mas, após se apaixonar pelo aprendiz Aleixo, branco, loiro e considerado fraco, acaba mudando sua conduta com seus superiores, buscando defender seu amado. 

Agora já sendo de domínio público, e contando com diversas outras edições no país, a editora Todavia lançou, em julho deste ano, uma nova edição do livro. Os novos exemplares contam com 176 páginas, e já estão disponíveis para compra nas principais livrarias do Brasil, com um preço de capa de R$49,90 (compre aqui). A edição ainda tem um texto sobre a importância e a problemática em torno da obra.

Capa da nova edição, lançada pela editora Todavia

Embora tenha sido revolucionário para época, o livro continua se mantendo como uma narrativa bastante atual, por tratar e subverter temas extremamente polêmicos onipresentes ao longo do tempo histórico, como a relação entre homens e o racismo presente na sociedade. Aliás, estes são pontos de partida para diversas possíveis problematizações quanto a seu enredo, devido a passagens que reforçam estereótipos relacionados a raça de seus personagens.

A doutora em literatura Alessandra Magalhães, reforça esses problemas na relação entre os dois principais personagens.

“A construção da homossexualidade em 1895 é vista como algo desviante do comportamento da sociedade. O desejo de Amaro por Aleixo é correspondido, mas ao longo do texto acaba se tornando uma relação na qual Amaro induz o outro, como se ele o tivesse levado a ter desejo por homens. Ele [Caminha] coloca as questões relacionadas ao sexo, e portanto, da homossexualidade, de forma animalesca”, comenta ela. “A grande questão é que isso reflete na forma como os negros são vistos pela literatura brasileira do séc. XIX, como violentos, selvagens…estereótipos que ainda permanecem. Claro que é um livro pioneiro, e precisa ser debatido para que possamos ampliar nosso repertório sobre esses estereótipos também, é um livro que precisa ser lido e ser entendido dentro de seu contexto histórico, mas que também precisa ser entendido dentro de nossos dias”.

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