Primeiras Impressões – NOS4A2

É impressionante como o momento da cultura pop tem aberto margem para as mais diversas obras explorarem variados gêneros. Isso tem acontecido mais fortemente na TV, onde os seriados ganharam uma força absurda. Os vampiros parecem ganhar mais espaço nesse meio, especialmente no período de queda dos zumbis. A adaptação de What We Do in The Shadows mostrou um desses caminhos, mesmo sendo de um lado mais independente e menos divulgado – por enquanto. Em NOS4A2, esse conceito de monstros se atrela ao terror, gênero ainda pouco desenvolvido em seriados mais recentemente. Aqui, a ideia é trazer o mito do Nosferatu para os tempos contemporâneos, atrelando mais questões no meio.

Na trama, a jovem Vic McQueen (Ashleigh Cummings) acaba descobrindo ter a habilidade de encontrar diversas coisas perdidas e entrar em lugares aparentemente inexistentes. Esse fato a coloca de frente com Charlie Manx (Zachary Quinto), um homem que rapta crianças e suga suas vidas. Dessa maneira, ele acaba conseguindo sempre ficar jovem e deixar a aparência velha para trás.

Existe um lado bem desenvolvido já abordado no primeiro episódio. Se todo esse conceito do Nosferatu está bastante inspirado (para não dizer copiado) no Drácula, por que não passar o temor da atualidade no meio disso? Ainda mais ao trazer a catalização dessas questões, seja pelo lado dramático, seja do horror, para uma cidade pequena. Rememora de maneira bem clara a obra de Stephen King, na qual gosta de trazer esses temas sob uma pressão das relações muito próximas. Talvez seja claro porque a adaptação da produção é de um livro de Joe Hill, filho de King. Entretanto, pegando mesmo nesse sentido do fio narrativo nas idas audiovisuais de Stephen, há uma sinergia forte com a recente Castle Rock. Pelo lado do clima isso fica claro, mas também por toda essa observação quase sociológica.

No desenvolvimento dos personagens principais, há ainda muito espaço para frente, porém de cara a apresentação chama bastante atenção. Toda a aparição de Charlie e seus pequenos gestos trazem um estranhamento por parte da audiência – e sem ser direto. A maquiagem e interpretações de Zachary Quinto ajudam nesse sentido, causando um misto de repulsa e curiosidade sobre essa figura. Até quando o garoto da primeira sequência é raptado, ele parece sentir o mesmo. Ele busca entender o que estaria acontecendo, porém tentando fugir de um trauma eminente.

Esse fato acaba contrastando com o desenvolvimento dramático já apresentado de Vic. A protagonista possui um lado familiar bastante complexo, em que ocorrem diversos segmentos paralelos (com seu pai, o pai e a mãe, a fuga de casa). Isso já serve para uma demonstração de sua perturbação na qual poderá e deverá ser explorada mais para frente nos episódios. Sua conexão meio esquisita/paranormal com Charlie ainda é feita mais leve, apenas em uma cena de um terror psicológico. Em toda esse momento específico, há até uma lembrança de À Beira da Loucura, do diretor John Carpenter, pelo clima de não entendimento partido da protagonista, além de sua conexão sem muito entendimento com os espaços cênicos.

As primeiras impressões apresentadas em NOS4A2 são de um futuro promissor. Apesar da história ainda mostrar pouco, focando em um lado mais sensível e do passado desses personagens, é interessante o fato da série já se preocupar em estabelecer um conflito, um antagonismo. Isso, é claro, será deixado mais óbvio no que virá pela frente, todavia essa criação já gera uma expectativa. Se a ideia era realmente trazer toda essa carga da narrativa de Nosferatu para um tempo atual e em uma cidade qualquer, é possível averiguar sucesso da obra. O clima aqui já denota um temor de qualquer lugar das situações. Nada é deixado na cara, mas para as sensações do telespectador. E isso é o grande ponto alto.

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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