Resenha – O Jardim dos Finzi-Contini (Giorgio Bassani)

É difícil realmente dizer que O Jardim dos Finzi-Contini é um romance. Ele parece mais uma mescla da realidade com traços ficcionais, de tanta realidade que estamos vendo sendo descrita nas páginas. O trabalho do italiano Giorgio Bassani é realmente curioso nesse sentido. Ele, que se envolveu em atividades antifascistas a partir de 1938 (quando tinha 16 anos), parece buscar olhar para todo esse passado e memória da sua vivência para transportar em uma obra literária. Porém, diferentes de tratados como Anarquistas, Graças a Deus, de Zélia Gattai, em que o livro está buscando se diretamente relacionar com um lado político, aqui estamos em uma áurea que cerca toda a narrativa, mas que nunca é eterna.

Talvez essa tenha realmente sido a sensação do autor ao tratar de personagens tão complexos, porém que nunca aparentam ser. Já que estamos falando da trajetória dos Finzi-Contini, uma família de judeus vivendo na Itália no início do século XX. A principal atividade deles, como hobby, é jogar tênis. O problema é que, ao longo dos anos 30, as leis contra judeus começam a endurecer no país e os familiares se isolam dentro da casa. É nesse momento que vivenciamos o dia a dia do protagonista – sobre quem não sabemos o nome, um dos poucos jovens judeus que começam a frequentar o casarão para jogar uma partida. Porém, o medo de algo que chega ao redor parece cada vez mais próximo.

É curioso como o livro trabalha o elemento do medo fascista como algo distante, no entanto que está à espreita. Durante boa parte da narrativa, Bassani não dá espaço para esse elemento se colocar como o fio principal da trama, que sempre é o relacionamento do narrador com essa família e outros adjacentes. O problema é que essa realidade bate na porta e a perseguição contra eles começa a virar cada vez mais clara. Se torna até interessante como, logo nas primeiras páginas, o destino dos campos de concentração nazista já são bem claros nesse desenvolvimento: sabemos que eles estarão lá no fim. Mas como passaram por isso tudo? Essa é a grande busca da jornada por parte da história.

O problema é que O Jardim dos Finzi-Contini está longe de ser uma obra que busca expressar os pequenos elementos com clareza. Desse jeito, até criamos afeição pelo fato de acompanharmos esse protagonista ao longo do tempo, mas pouco sabemos mais sobre ele. É como se, os seus medos também, não fossem muito transportáveis para o leitor. Podemos fazer o comparativo com A Casa Holandesa, de Ann Patchett (que resenhamos aqui), que busca também um fio para observarmos todos os acontecimentos do ponto de vista de um personagem. A grande questão é que lá acompanhamos todo esse desenvolvimento prévio até o presente, o que pouco ocorre aqui.

Mas também é impossível de dizer que esse se trata de um livro simples. É um trabalho que observa facetas, olhares, possibilidades. Desse jeito, o autor está buscando muito mais trabalhar esse universo como complicado do jeito que ele é. Assim, descrições longas sobre lugares, situações, acontecimentos que não vemos, tudo isso está muito presente na maneira que iremos entender como esse mundo está se transformando. Esse é um aspecto que sobressalta de forma bem clara: como as passagens temporais causam estranheza. Elas parecem sempre munidas de uma mistura entre presente e futuro que nunca está acontecendo de verdade, porém que permeia tudo ali.

Desse modo, O Jardim dos Finzi-Contini é uma produção que não está claramente atrás de um início, meio e fim. Giorgio Bassani sabe bem dizer que constrói uma narrativa que sempre busca os olhares, as possibilidades. Isso faz com que ele perca também um desenvolvimento de personagem necessário para acompanharmos o problema do fascismo que os aparecerá futuramente. Contudo, é também interessante como, para uma família rica, tal situação pôde até ser ignorada durante algum tempo. E para tantos outros? Será que seria possível fugir desse triste fim?

Comentários

Cláudio Gabriel

É apaixonado por cinema, séries, música, quadrinhos e qualquer elemento da cultura pop que o faça feliz. Seu maior sonho é ver o Senta Aí sendo reconhecido... e acha que isso está mais próximo do que se espera.

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